Maria Thetis Nunes
(06.01.1923 a 25.10.2009)
Ibarê Dantas
Com o desaparecimento da professora Maria Thetis Nunes, a sociedade sergipana perdeu uma desbravadora e uma das maiores expressões de sua intelectualidade. Filha de família de poucos recursos e órfã do pai, José Joaquim Nunes, em plena infância, desde cedo assumiu uma autonomia de ação admirável.
Aos 11 anos deixou sua cidade natal, Itabaiana (SE), para continuar seus estudos em Aracaju e, a partir dos exemplos de sua mãe, Anita Barreto, e de sua avó Emília, foi-se revelando uma jovem intrépida. Como um ser obstinado, enfrentou preconceitos, venceu obstáculos, mas recebeu também o estímulo de parentes e de alguns mestres que se tornariam inesquecíveis, como o professor Artur Fortes.
Ao concluir o curso secundário no Atheneu Sergipense, foi para Bahia, onde se graduou em História e Geografia. De volta a Sergipe, prestou concurso, em 1945, para o mesmo colégio em que havia estudado, apresentando a tese Os Árabes, sua influência na civilização ocidental e, como a única mulher da congregação do estabelecimento, iniciou seu percurso de professora estudiosa, séria e responsável.
Enquanto ocupava a direção do Colégio Atheneu (1951/1954), deu aulas na Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe, que ajudou a criar. Em 1956, foi designada pelo governo Leandro Maciel para representar o Estado no curso do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), que congregava uma elite de intelectuais dedicada a estudar a realidade brasileira. No Rio de Janeiro, ampliou sua formação de marxista mesclada com a tendência nacionalista. Aproximou-se de Nelson Werneck Sodré, Cândido Mendes e tantos outros, tendo oportunidade de escrever ensaio sobre a ideologia nacionalista dos pensadores sergipanos Manoel Bomfim e Sílvio Romero.
Em face do seu talento e dos relacionamentos desenvolvidos, em 1961, foi para a Argentina como adida cultural dirigir o Centro de Estudos Brasileiros na província de Rosário, administrando a entidade e lecionando disciplinas relacionadas à História do Brasil.
Com a mudança política no nosso país, em 1965 retornou a Sergipe e, com sua formação humanística, com sua experiência e sua postura republicana, dedicou-se às atividades docentes e propiciou ao seu Estado uma inestimável contribuição cultural. Retomou a cátedra no Ateneu, inseriu-se no meio intelectual com uma participação destacada. Participou das discussões em torno da criação da Universidade Federal de Sergipe e afirmou-se como uma das fundadoras de realce.
Na nova instituição, ensinou História do Brasil, História Contemporânea, Cultura Brasileira, entre outras disciplinas e, com sabedoria, senso de responsabilidade e postura ética, marcou gerações de alunos. Além das aulas, participou de todos os conselhos superiores da UFS (Ensino e Pesquisa, Universitário e Diretor). Como decana, exerceu o cargo de Reitora em alguns períodos no curso de 1976 e 1977. Ademais, integrou os Conselhos Estaduais de Educação (1970/1981) e de Cultura (1982/1994) do Estado de Sergipe.
Não obstante a diversidade de suas atuações, anualmente empreendia pelo menos uma viagem ao exterior, ilustrando seus conhecimentos de História e Geografia, do Ocidente ao Oriente, tendo conhecido quase todos os continentes.
Sempre ativa, participante e dotada de espírito público, em 20.11.1972 assumiu a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, que passava por uma fase de dificuldades. Aí permaneceu por 31 anos empenhando-se pela melhoria de suas condições, tendo conseguido empreender importantes reformas, razão por que, ao deixá-lo, foi agraciada com o título de Presidente de Honra da entidade. Ingressou na Academia Sergipana de Letras e foi reconhecida com elevadas condecorações de mérito cultural por parte da Prefeitura de Aracaju, do Governo do Estado de Sergipe, pela Academia Sergipana de Letras e pela Universidade Federal de Sergipe, que lhe concedeu os títulos de Professora Emérita e de Doutor Honoris Causa. Coroando esse reconhecimento, foi escolhida pela sociedade como a mulher do século do Estado.
Se, na esfera do ensino, foi grande o seu contributo para uma educação orientada para ampliação da cidadania dentro dos parâmetros republicanos, não menos importante revelou-se como historiadora, voltada para a construção da identidade do sergipano.
Depois de ensaios sobre a legislação do ensino e a construção de nossa nacionalidade, após sua aposentadoria em 1993, intensificou as pesquisas e ampliou os estudos de História de Sergipe de forma sistemática e sequencial da Colônia até o início da República, produzindo a obra mais abrangente e mais importante de historiografia sergipana. Seu projeto era concluir seu último livro chegando até 1930. Nele trabalhava quando a morte chegou. Apesar disso, sua bibliografia é o maior testemunho de sua grandiosidade.
Além dos numerosos artigos em revistas e jornais, publicou os seguintes livros ou opúsculos, alguns dos quais lhe valeram prêmios nacionais:
A Civilização Árabe, sua influência na civilização ocidental. Aracaju, 1945.
Ensino Secundário e Sociedade Brasileira. MEC / ISEB, 1962.
Sergipe no Processo da Independência do Brasil. UFS, 1972.
Sílvio Romero e Manoel Bomfim: Pioneiros de uma Ideologia Nacional. UFS, 1976.
História de Sergipe a partir de 1820. Editora Cátedra / MEC, 1978.
Geografia, Antropologia e História em José Américo. João Pessoa, 1982 (Manuel Correia de Andrade, Maria Thetis Nunes, José Otávio Melo).
História da Educação em Sergipe. Paz e Terra / Governo do Estado de Sergipe / UFS, 1984.
Manuel Luís Azevedo d’Áraújo, Educador de Ilustração, INEP/ MEC, Brasília, 1984.
Sergipe Colonial I. Tempo Brasileiro / UFS. 1989.
Ocupação Territorial da Vila de Itabaiana. Separata dos Anais do VIII Simpósio dos Professores Universitários de História. São Paulo, 1976.
A Política Educacional de Pombal e sua repercussão no Brasil-Colônia. Separata dos Anais da II Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1983.
Manoel Bomfim (1868/1932). Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, no 155, 1994.
O Poder Legislativo e a Sociedade Sergipana. Anais da XIV Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SPBH), 1994.
As Câmaras Municipais. Sua atuação na Capital de Sergipe D’El Rey. Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1995.
O Brasil Nação, de Manoel Bomfim, na Historiografia Brasileira. Separata dos Anais da XVII Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1997.
A Contribuição de Felisbelo Freire à Historiografia Brasileira. Separata dos Anais da XVI Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1996.
Sergipe Colonial II, Tempo Brasileiro, 1996.
Catálogo dos Documentos Avulsos da Capitania de Sergipe (1619 - 1822). Arquivo Histórico Ultramarino, UFS, 1999.
Sergipe Provincial I, Tempo Brasileiro, 2000.
Sergipe Provincial II, Tempo Brasileiro, 2006.
Fontes Consultadas:
Maria Nely Santos. Professora Thétis: uma vida. Aracaju: Gráfica Pontual, 1999.
A Historiografia de Maria Thetis Nunes. Anais da VII Semana de História. São Cristóvão, UFS, 2004
Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe Brasileiro. Dicionário Biográfico. Maria Thetis Nunes. http://www.ihgb.org.br
Maria Thetis Nunes. Entrevista a Glauco Vinícius e Raquel Almeida, infonet.