No Tribunal do Santo Qualis

03/05/2010, 15:15

Jornal da Cidade

Publicada: 02/05/2010

 

Texto: Samuel Barros de Medeiros Albuquerque (Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e Professor da Universidade Federal de Sergipe)

Recentemente, tomei conhecimento da última avaliação dos periódicos sergipanos realizada pelo Ministério da Educação, através do Programa Qualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O famigerado programa foi um instrumento criado pela Capes para avaliar a qualidade e classificar os periódicos que divulgam a produção dos programas de pós-graduação no Brasil. Mas, na prática, os resultados divulgados pelo Qualis têm se constituído nos principais indicadores de qualidade dos veículos de divulgação da produção intelectual e científica.

No “Tribunal do Santo Qualis”, existem mandamentos que devem ser continuamente obedecidos pelos periódicos científicos. Para cada área do conhecimento existem regras claras que irão determinar seu “lugar ao sol” no mundo acadêmico. Anualmente, esses veículos são enquadrados nos seguintes estratos indicativos de qualidade: A1 (peso 100); A2 (peso 85); B1 (peso 70); B2 (peso 55); B3 (peso 40); B4 (peso 25); B5 (peso 10); e C, com peso zero. O aplicativo que permite a consulta ao Qualis, bem como a divulgação dos critérios utilizados para a avaliação e classificação de periódicos é o WebQualis (http://qualis. capes.gov.br/webqualis/). A consulta do periódico poderá ser feita pelo ISSN, pelo título ou pela classificação por área.

Sabemos que a revista, veículo intermediário entre o jornal e o livro, constitui-se num importante indicador das transformações sociais e dos novos rumos da produção do conhecimento. Ana Luiza Martins e outros estudiosos que elegeram a revista como fonte de pesquisa destacam características próprias desse tipo de periódico, como, por exemplo: o caráter seriado e condensado, o propósito informativo, formador e de representação de grupo, além de outros aspectos ligados à edição, extensão, autoria, periodicidade e materialidade. Revista é, enfim, um importante veículo utilizado para formar e legitimar interesses de grupos de intelectuais, delimitando milimetricamente os novos campos de pesquisa (MARTINS, Ana Luiza. Revista em Revista... São Paulo: EDUSP; Fapesp; Imprensa Oficial do Estado, 2001).

Entre as revistas sergipanas de História, a Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) representa o mais antigo e importante periódico em circulação. Instituída em 27 de setembro de 1912, o primeiro número circulou em 1913. Até o presente, foram publicados 39 números da Revista. Desses, 32 foram devidamente analisados por Itamar Freitas, levando em conta a produção e circulação; o perfil dos autores/colaboradores; os tipos documentais produzidos; os temas e problemas predominantes e as cores locais na produção do conhecimento histórico e geográfico (FREITAS, Itamar. A Escrita da História na ‘Casa de Sergipe’ – 1913-1999. São Cristóvão: UFS; Aracaju: Fundação Oviêdo Teixeira, 2002 - Coleção Nordestina).

No ano de 2005, quando passou a circular o número 34, a Revista do IHGSE retomou sua periodicidade anual, mas sequer era avaliada pelo Qualis, constituindo-se em periódico invisível aos olhos do Capes. Nos anos seguintes, com a veiculação dos números 35 e 36, passou a figurar, com uma classificação irrelevante, entre os periódicos de Geografia avaliados pelo programa. Em 2008, tomando como referência o ano-base e o número publicado em 2007, a Revista passou a figurar, também, entre os periódicos de História com uma classificação muito modesta, claro reflexo da inexistência, em Sergipe, de programas de pós-graduação stricto sensu na área de História, dificultando a veiculação de trabalhos produzidos por autores ligados à cursos de mestrado e doutorado na referida área do conhecimento.

Em 2010, um esperado e satisfatório resultado: tomando como referência o ano-base 2008 e o número 37, a Revista do IHGSE passou a figurar entre os periódicos de qualidade B3. A novidade não parece um grande feito quando consideramos a longevidade e a importância da Revista do Instituto para a história intelectual de Sergipe. Contudo, devemos considerar que, até o presente, nenhum periódico sergipano de História obteve conceito superior a esse na avaliação do Ministério da Educação.

É preciso salientar que, no julgamento do Tribunal do Santo Qualis, outro periódico sergipano de História mereceu destaque: a revista eletrônica Ponta de Lança, do Grupo de Pesquisa História Popular do Nordeste (UFS/CNPq), obteve o mesmo conceito alcançado pela Revista do IHGSE. É um mérito que ganha maiores proporções quando observamos o fato de se tratar de um “jovem periódico”, que, circulando desde 2007, está em seu quarto número e vem atendendo a muitos dos critérios estabelecidos pela Capes.

Além da Revista do IHGSE e da Ponta de Lança, outro periódico sergipano de História foi classificado no programa Qualis, o Caderno UFS de História. Contudo, é provável que a periodicidade irregular do veículo deva ter pesado para sua colocação no estrato indicativo B4, um pouco aquém de suas congêneres.

Em se tratando da classificação da Revista do IHGSE junto aos periódicos dos demais Institutos Históricos, ficamos atrás, somente, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e no mesmo patamar das revistas dos Institutos do Ceará, Bahia, Mato Grosso, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Entretanto, um mesmo periódico pode ser classificado em duas ou mais áreas distintas,
podendo receber diferentes avaliações. Segundo a Capes, isso não representa inconsistência, “mas expressa o valor atribuído, em cada área, à pertinência do conteúdo veiculado”.

Nesse sentido, vinculados à Universidade Federal de Sergipe, existem outros periódicos classificados pelo programa Qualis que, mesmo não se constituindo em revistas especializadas em História, veiculam trabalhos que remetem ao referido campo. São elas: a revista eletrônica internacional EPTIC, do Observatório de Economia e Comunicação; a revista Tomo, do Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, e a revista Canindé, do Museu de Arqueologia de Xingó. As duas primeiras classificadas como B4 e, a última, classificada como B5 na área de História.

As benéficas transformações operadas na Revista do IHGSE processaram-se ao longo da gestão Ibarê Dantas (2004-2009). Enquanto coordenador da Revista, acompanhei de perto o referido processo, mas o feito não teria sido possível sem a parceria criada através do convênio com a UFS, instituição na qual contamos com o empenho constante do Reitor Josué Modesto dos Passos Subrinho, da Chefe de gabinete Ednalva Freire Caetano e da técnica Adilma Meneses.

Dessa forma, a quase centenária Revista do IHGSE continua na vanguarda da historiografia sergipana, ocupando lugar de destaque e respondendo às novas demandas do campo intelectual brasileiro.

Mas ainda há muito por fazer, mesmo sabendo que a nossa Revista, por sua história e por sua contribuição ao pensamento sergipano e brasileiro, está muito além da avaliação do programa Qualis. Nesse sentido, a nova Diretoria do IHGSE confiou ao jovem professor/pesquisador Giliard da Silva Prado o destino do mais importante veículo de divulgação do conhecimento histórico em terras sergipanas. Certamente, o novo editor saberá estreitar nossa parceria com a UFS e com a comunidade intelectual do nosso Estado. O centenário da “Casa de Sergipe” se aproxima e bons ventos parecem movimentar às paginas da Revista do IHGSE.

E-mail:
samuelalbuquerque@ufs.br

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